sexta-feira, 3 de junho de 2011

Quem não tem namorado - Carlos Drummond de Andrade

Fotografia em uma praça de Bruges - Bruxelas


Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namoro de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas, namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado, não é que não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter um namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa é quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora em que passa o filme, de flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira d'agua, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos e musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não chateia com o fato de o seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo, e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras, e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada, e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo da janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uam névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteira. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. Enlou-cresça.'


Flecha lançada



A vida virtual faz o Brasil acelerar projetos e se impor em nível internacional. O novo planejamento é  a construção de um novo cabo submarino, para tráfego de dados até a Europa e a África, que cruzará o Atlântico. De Natal (RN) a Fernando de Noronha, ligará a Cabo Verde, para chegar à África do Sul e finalmente a Portugal. Se 90% da conexão hoje passa pelos Estados Unidos, o Brasil se impõe à procura de alternativas mais baratas e velozes, como exige o mundo contemporâneo.

Um outro megaprojeto, ainda com pouca divulgação, é a nova linha férrea de transporte de cargas ligando o porto do Açu, no Norte-Fluminense, especificamente em São João da Barra ao Rio de Janeiro. Sabe-se que esta conexão ligará os Oceanos Atlântico e Pacífico, no Peru. Do lado de lá estarão à espera dos minérios e outras exportações, os Tigres Asiáticos. Ó pátria amada, idolatrada/ Salve, Salve”!

Será a Ordem e o Progresso? Com certeza, o segundo sim. O primeiro levará tempo. Há um provérbio chinês que assume : “Há três coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida”. O estado do Rio deslancha a cada dia. Mas e a infra-estrutura para tal desenvolvimento? E as estradas? O rio Paraíba, que já foi meio de transporte de cargas, escorre plácido em berço esplêndido. Ninguém dá a ele o ar da graça embora nasça em São Paulo e chegue bem próximo ao pré-sal e ao petróleo fluminense. A flecha já está no ar e o alvo não pode ser desviado.

"O grande ditador"


           

            Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

            Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

            O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

            A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

            Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

            Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

            É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!



Filme “O grande ditador” com Charles Chaplin


http://www.youtube.com/watch?v=3OmQDzIi3v0



sexta-feira, 15 de abril de 2011

BILHETE

                                            Foto tirada em Bruxelas


Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
(Mário Quintana)

Kamikazes contemporâneos


Desde os guerreiros samurais, no século XII, os “kamikazes” na Segunda Guerra Mundial e a convulsão irreparável Hiroshima e Nagasaki, este povo se mantém forte, orientando-se pela estrela maior, a cultura do sol nascente.
Viu-se a terra, mais uma vez tremer, junto às casas e tudo o mais na terra, no ar e no mar. Como disse Gandhi: “O medo não tem utilidade, mas a covardia não”. Os japoneses respeitam os fenômenos naturais e prepararam-se com uma fortalecida e até personalizada arquitetura, para os desencontros do solo sempre inconstantes e imprevisíveis.
Contudo, o tsunami há pouco, mergulhou os japoneses, sem escolha de idade, sentimento e religião a uma fatalidade de horror.  Não se viu pânico, lamento ou desespero, apesar de a terra continuar tremendo e provocando os japoneses com a radiotividade no ar. A fragilidade territorial do arquipélago japonês não intimida o povo que continua unido, com olhos pequenos, mas amor gigantesco e com a exaustiva luta contra as tormentas que teimam em lhes perseguir.
Com o apocalipse, mais uma vez, fecharam-se as cortinas do cenário devastador e o que se presencia é a resignação, atitudes discretas de contensão, mas de ação e perceptivelmente, o conceito inabalável de pátria. Até as ilhas se contorcem, mas se mantêm umas próximas às outras, dando-lhes frequentemente o abraço fraterno.
Os japoneses parece se unir discretamente para a reação. Sabem que, inevitavelmente, o sol continuará nascendo primeiro lá, sem contaminar os sentimentos de fé, esperança inabalável e a coragem dos “kamicazes”, que continuam se preparando para a luta, compreendendo e respeitando as desconexões da natureza. Paralelamente, aos embates terrestres, sabem fazer a reconstrução da esperança. Um exemplo de conceito de vida.

Hipocrisia nas relações sociais

Parece que todos estão juntos, nesta atual vida moderna, em alta velocidade, unindo-se pela voz, tato e visão. O planeta Terra interconectado com os acessórios de bolso, as telas luminosas portáteis e a comunicação em tempo real torna visível a nova era da rede da teia, da união e da interrelação.
Mas o incrível acontece. No entorno da corrida midiática, comete-se preconceito ao vivo e em cores: a discriminação na tela. Um parlamentar, representante do povo, descumpre a Constituição, assumindo-se como pai responsável, que sabe ensinar os filhos a não se aproximar de negros, como a Preta Gil, filha do ex-ministro da Cultura. “Preta, não!”
Lá do outro lado do Oceano Atlântico, Neymar, aquele jogador de futebol arisco, matreiro, que se joga no chão, pedindo falta ao juiz, mas que levanta a torcida, com os gols fantásticos, estreou na Inglaterra. Povo culto, com reis, rainhas, príncipes e princesas, tradição de coroas e figurinos reais. Mas recebeu da torcida adversária uma banana no campo. Discriminação no esporte em um país com tradição cultural.
E lá no alto, no norte da América, o polêmico pastor, Terry Jones, que queimou o Alcorão? Insuflou a rebeldia, conflitos sociais, com pelo menos, nove pessoas mortas e mais de 70 feridos no segundo dia consecutivo de protestos no Afeganistão.
A hipocrisia das relações sociais é exposta aqui e ali e agora com apelos na mídia. Uma das bases fundamentais dos direitos humanos é o princípio de que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Se o mundo se mostra globalizado, pela comunicação virtual, é importante perseguir, concomitantemente, o sentido ético, fraterno e respeito às diferenças individuais.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Todo mês sangra? Mulher é bicho esquisito.


Rita Lee bem assim: “Mulher é bicho esquisito/todo mês sangra”. Uma música que ouvia ali atrás. Há poucos anos. A bela e a fera cor de rosa choque. Vinícius de Moraes era diferente: pedia a namorada um juramento: “Ser só minha até morrer”.  É só ver agora: mulher de 2011. Sangue jorrado na labuta do dia-a dia. Sangra, dá leite para a vida e não acha bonito não ter o que comer. Coisas de 1940 nos pensamentos do Ataulfo Alves (1940).  Atua com a pluralidade de funções que ainda a sociedade lhe exige. Não foge à luta. Delegadas, promotoras, juízas, prefeitas, governadoras, ministras, gerentes... De cabeça erguida, sem nenhum sotaque, sangra todo dia com os dois lados da Eva. Por vezes, silenciosa. Olhe a Dilma Roussef, a presidente. Discreta com todo o poder. Lá, criando expectativas. Você não vai vociferar com os homens? Não. Quieta. Indecifrável como esfinge. Sobrevoou a catástrofe na região serrana. Pronunciamento com ação. Ponto. Do outro lado, estão as Kirchners e as Angela Merchels. Mas o que acontecerá com a iraniana Sakineh Ashtiani? 99 chibatadas como punição por manter "relacionamento ilícito" com um homem. O enforcamento pode ser. Ou a lapidação como determina o código penal do Irã. As pedras lançadas serão grandes o suficiente para causar dor, mas não grandes para matá-la imediatamente. Cultural. A mulher sangra, não apenas todo mês, mas todo dia. Sabe o que quer e para onde vai. Mostra-se plena, feliz, infeliz. E daí? Não provoque, pedia Rita Lee. Pode ser cor de rosa choque. Por que não?